03/18/2026
Estórias das estradas.
Naquela madrugada, ele já se arrependia de ter aceitado a viagem.
Não era uma noite qualquer.
Era uma sexta-feira 13.
Dirigir nunca foi o problema. Ele conhecia cada curva, cada subida. Mas transportar combustível na madrugada, sob chuva pesada, com ventos fortes atravessando as montanhas, em estradas congeladas… isso era outra coisa. Aquilo exigia mais do que experiência. Exigia nervos de aço.
E havia o lugar.
A Highway 3 Crowsnest Pass.
Mais especif**amente… a região de Frank Slide.
Ali, no início dos anos 1900, a montanha simplesmente veio abaixo no Frank Slide, soterrando parte da cidade enquanto as pessoas dormiam. Famílias inteiras desapareceram. Corpos nunca foram encontrados.
Diziam que a terra ali nunca ficou em paz.
Que ainda havia coisas presas sob as pedras.
Esperando.
O Mack Truck vermelho avançava como um animal cansado, os faróis cortando a escuridão. Atrás dele, o bitrem carregava 60 mil litros de combustível — um peso morto e perigoso, balançando a cada rajada de vento.
O limpador de para-brisa batia descompassado, quase inútil contra a chuva que agora virava gelo. O caminhão tremia sob o impacto do vento. Cada rajada parecia tentar jogá-lo contra as pedras negras do deslizamento ao lado da estrada.
O rádio chiava… e então morreu.
Silêncio.
Um silêncio pesado demais.
Ele engoliu seco.
E foi quando percebeu algo estranho.
Não havia luz alguma ao redor.
Nem reflexo.
Nem sinal de vida.
Aquela parte da estrada parecia… apagada do mundo.
Foi então que viu.
Algo à beira da pista.
Os faróis tocaram a figura por um segundo.
Um animal… grande demais. Parado. Imóvel.
Ele reduziu a velocidade.
“Vai… sai da estrada…” murmurou.
A coisa não se mexeu.
Então — sem aviso — virou a cabeça.
Rápido demais.
Seco demais.
Os olhos refletiram a luz.
Altos.
Como se estivessem… no lugar errado.
Ele pisou no freio.
O Mack respondeu pesado, o bitrem puxando para trás, deslizando na pista congelada. O coração dele martelava enquanto o caminhão lutava para parar.
Quando conseguiu…
Não havia nada.
Só a estrada vazia.
E as pedras.
As pedras do deslizamento.
Empilhadas como um cemitério sem cruzes.
— Não…
Ele respirava rápido agora.
Foi quando ouviu.
BUM.
Vindo de trás.
Do bitrem.
Outro.
BUM.
Como se algo estivesse… batendo de dentro dos tanques.
Ele sentiu o sangue gelar.
Sessenta mil litros de combustível…
E algo ali dentro.
Três batidas.
Pausa.
Três batidas novamente.
Ritmo.
Intencional.
Como um sinal.
O caminhão inteiro vibrou.
E então…
O motor falhou.
As luzes piscaram.
E apagaram.
O Mack morreu no meio da escuridão.
Mas não era uma escuridão comum.
Era… densa.
Pesada.
Quase sólida.
E então ele percebeu outra coisa.
A chuva… tinha parado.
O vento… também.
Nada se movia.
Como se o mundo tivesse prendido a respiração.
TOC.
Algo bateu no vidro.
Do lado do motorista.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Não queria olhar.
Não ali.
Não naquele lugar.
Outro toque.
Mais forte.
TOC… TOC… TOC.
Ele virou lentamente.
E viu.
Um rosto.
Colado no vidro.
Coberto de sujeira… ou talvez poeira.
Como se tivesse vindo debaixo das pedras.
Os olhos…
Fundos demais.
Altos demais.
E o sorriso…
Aberto demais.
A cabeça inclinou.
Quebrando o ângulo natural.
Observando.
Aprendendo.
Então a boca se abriu.
E dessa vez… saiu som.
Um sussurro seco.
Como terra deslizando.
— …frio…
Ele congelou.
E então, atrás dele—
BUM!
Muito mais forte.
O tanque inteiro tremeu.
O metal estalou.
Como se algo estivesse tentando sair.
Como se algo estivesse acordando.
E naquele instante, ele entendeu.
Não era um animal.
Nunca foi.
E não era só uma coisa.
Naquela estrada…
Naquela terra…
Ainda havia gente soterrada.
Ainda havia coisas presas.
E naquela sexta-feira 13…
Alguma coisa decidiu subir.
Uma ficou do lado de fora.
A outra…
Entrou no tanque.
Se misturou ao combustível.
Viajou com ele.
Esperou.
Porque naquele lugar…
Os mortos não f**am onde foram deixados.
Eles procuram saída.
E, às vezes…
A única saída…
É ir junto com quem ainda está vivo.