13/12/2025
Li Eros após o livro me ter chegado numa escala de avião, sobrevivido a caixas de mudanças e esperado, pacientemente, por uma casa nova. Essa viagem não o transformou; apenas o colocou em suspensão. A leitura começou quando o espaço ficou em silêncio.
Eros não se lê como um livro de poemas convencional. Lê-se como um campo. Um terreno onde palavra, página e corpo se testam mutuamente. Filipe Chinita escreve com uma consciência aguda de que o erotismo não reside no que é dito, mas na forma como o dizer se aproxima, recua, falha ou insiste. Aqui, o desejo não é tema: é método.
O poema cresce verticalmente, escavando. As palavras isolam-se, quebram-se, abrem parênteses, recusam a fluidez fácil. Há uma recusa deliberada da frase confortável. Cada verso parece perguntar-se se tem o direito de existir — e é precisamente essa dúvida que o legitima. O erotismo em Eros é um exercício de atenção extrema: ao corpo, à memória, à linguagem, à história.
O livro constrói-se em camadas. Corpo íntimo e corpo político não se separam. A sexualidade é atravessada pela herança, pela violência histórica, pela educação sentimental de um país e de uma língua. Há aqui um entendimento claro de que não existe desejo inocente — e, ainda assim, o texto insiste numa possibilidade de beleza. Uma beleza tensa, nunca decorativa.
A disposição gráf**a não é um adorno: é semântica. O espaço em branco não ilustra o silêncio; é o silêncio. As imagens contaminam o poema, não como ilustração, mas como matéria orgânica. O livro exige tempo e exige o corpo do leitor — os olhos, a respiração, a paciência.
Não há concessões.
O que mais me interessa em Eros é a sua ética. Este é um livro que não seduz para agradar, mas para deslocar. Não procura cumplicidade fácil, nem reconhecimento imediato. Há risco na forma, risco no tom, risco na exposição. O erotismo aqui não é consumo: é fricção.
Quando fechei o livro, não senti que tivesse terminado uma leitura, mas que havia percorrido um caminho. Eros não deixa uma conclusão — deixa um estado. Um lugar onde a linguagem ainda treme, onde o corpo ainda pensa, onde o desejo continua indomável, incómodo e necessário.
É um livro que não pede amor. Pede atenção. E isso, hoje, é raro.
@seguidoresáFábrica de Textos - Grupo Escrita CriativapApaixonados por Livros e DivulgaçãoiDicas de leituramAmantes da Leitura