09/06/2026
MOÇAMBIQUE, A “PÉROLA Q***R DO ÍNDICO”: NOVO LIVRO RESGATA A HISTÓRIA E A VIVÊNCIA LGBTQIA+ NO PAÍS
A obra académica "Q***r Mozambique: From the Mines to the Manas" já está disponível. O evento de lançamento teve lugar no dia 4 de Junho, no Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e foi marcado por emoção e apelos à quebra do silêncio.
O livro é pioneiro em reunir toda a produção sobre o tema da homossexualidade já produzido em Moçambique, incluindo no meio académico e, é classificado pelos participantes como um marco na dignidade e na visibilidade positiva da comunidade LGBTQIA+ moçambicana.
Na abertura, o Director Executivo da LAMBDA - Roberto Paulo destacou que a importância do livro apontando que, surge como um instrumento fundamental para o contexto social moçambicano, "pois quebra estereótipos e desmonta o mito de que as identidades LGBTQIA+ são alheias à cultura africana e moçambicana em particular." Para Roberto Paulo, "o livro humaniza as lutas LGBTQIA+ e mostra que a diversidade sempre fez parte do tecido social moçambicano."
A mesa de debate contou com a participação dos autores e editores do livro, Francisco Miguel e Marc Epprecht, da investigadora Judite Chipenembe e do activista Danilo da Silva, antigo director executivo da LAMBDA e prefaciador da obra. Na sua intervenção, Francisco Miguel explicou que a principal motivação para avançar com o livro partiu da sua própria vivência como homem gay e do desejo de compreender a realidade de outros contextos. Segundo o autor, "Moçambique tem muitos aspectos interessantes e uma complexidade na qual é possivel destacar aspectos que não estão muito claros em muitos trabalhos na área, por exemplo, a tolerância. Segundo Francisco Miguel, Moçambique tem uma história muito profunda marcada por silêncios, por discursos exogenia, mas também por tolerância", explicou, ao definir o país nos seguintes termos: "Moçambique é a pérola q***r do Índico."
Por sua vez, o académico Marc Epprecht, que também contribuiu para o livro trazendo uma análise comparativa com países anglófonos e francófonos, criticou a perspetiva historicamente eurocêntrica e negativa de investigadores estrangeiros. Segundo Epprecht, muitos escreveram sobre Moçambique mas sem nunca terem estado no país, ao rotular as práticas locais como "imorais". O investigador desafiou a classe académica a seguir este percurso de documentação das vivências da comunidade LG TQIA+.
Já Danilo da Silva partilhou um testemunho sobre o impacto do manuscrito de "Q***r Mozambique". "Senti que estava a ser preenchido ao ler", confessou. Da Silva recordou as dificuldades enfrentadas nos primeiros anos da associação LAMBDA, quando a maioria das referências sobre a comunidade estava em inglês e retratava as realidades do Zimbabwe e da África do Sul. "Em Moçambique estávamos como órfãos. Este livro vem preencher um vazio muito grande, porque a nossa vivência e história sempre foram silenciadas, incluindo no espaço académico."
O activista aproveitou a ocasião para recordar as barreiras que muitos estudantes enfrentavam para verem seus temas de investigação sobre sexualidade aceites pelos tutores universitários. "Pessoas como nós sempre existiram neste pedaço de terra que chamamos Moçambique", defendeu, lançando um apelo para que a obra seja traduzida para o português e sirva de estímulo para novos investigadores resgatarem outras perspetivas omitidas.
A recepção da comunidade foi de celebração. A activista Pepetsa Fumo destacou que o livro traz uma "visibilidade positiva" e contribui diretamente para a documentação destas vidas. No mesmo sentido, o também activista e docente universitário Dario de Sousa apontou o lançamento como um ganho histórico: "Nem toda a ciência é boa; muitas vezes a comunidade LGBTQIA+ não foi documentada de forma positiva. Este livro conta as nossas histórias como elas são", elogiou.
A obra compila e analisa de forma minuciosa todo o material já produzido no país no meio académico sobre a homossexualidade, desde mografias, dissertações e teses e inclui ainda, um ensaio fotográfico pioneiro, da fotografa e documentarista dinamarquesa Dite Haarlov Johnsen.
O evento terminou com um voto unânime entre os presentes: o de que esta obra não seja um ponto final, mas sim o combustível para que surjam novas conversas, debates e investigações científicas em Moçambique.
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