09/06/2026
̧ão Foi um ano de investigação. Conversas intercetadas mostram familiaridade com várias figuras públicas. Uber da Droga liderava rede de tráfico com um sócio e apoio da própria mãe.
07 jun. 2026, 22:01
O Uber da droga dos famosos
Um traficante criou um serviço de entregas ao domicílio para clientes VIP. O editor de sociedade do Observador Pedro Rainho explica como funcionava a rede e quem fazia parte dela.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: o Uber da droga dos famosos. Uma mensagem com o menu do dia, a encomenda e uma entrega à porta de casa. Este modelo de venda de droga surpreendeu a polícia, que investigava o traficante há muito, mas não conhecia os contornos do negócio, nem a lista de clientes VIP, estrelas das revistas, celebridades e membros mais ou menos influentes da sociedade. Durante dois anos, todos os passos foram vigiados de perto, as mensagens, os telefonemas, os encontros, a forma como a rede se espalhava no circuito familiar e fora dele. Um caso surpreendente, sobre o qual vou falar hoje com o editor de sociedade do Observador, o Pedro Rainho. Vamos entrar por dentro do esquema do Uber da droga, perceber como cresceu e como se desmoronou este negócio das entregas de droga porta a porta a clientes famosos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 8 de janeiro. Olá, Pedro, bem-vindo.
Olá, é um gosto estar aqui.
Muito bem, o gosto é meu. Pedro, nós estamos a chamar a isto Uber da droga. Na verdade, a operação policial também lhe deu este nome e faz sentido que seja assim, não por causa da marca, mas pelo que aquilo representa na forma como este negócio era feito. Como é que era?
Sim, não tem nada a ver com a marca de transporte. De facto, essa dissociação tem que ficar bastante clara. Por que foi dado este nome à operação? Porque, na verdade, o que temos aqui é um traficante de droga, que ao invés de funcionar no método habitual, que é ter um local fixo onde os clientes iam buscar a droga, o que ele fazia, em muitos casos, era receber as encomendas e ir ter com os clientes, fosse à casa deles, fosse a uma festa, fosse a um brunch eletrónico, como eles chamavam. Portanto, tinha este modelo de receber encomendas e ir quase porta a porta entregar as encomendas que tinha recebido.
O que imagino que fosse confortável para os clientes.
É confortável e, sobretudo, é bastante discreto, porque permitia algum tipo de anonimato, de maior discrição, porque as pessoas não tinham que se deslocar, era ele que ia ter ao encontro delas e, portanto, ficavam de alguma forma mais protegidas.
E estando a falar de uma lista de clientes VIP, digamos assim, no sentido da fama e do estrelato, essa discrição era desejável. Agora, tu falaste dos brunches eletrónicos e é curioso porque a polícia quando começa a investigar este traficante de droga, na verdade, não fazia ideia deste esquema de entregas porta a porta.
Sim, numa fase inicial, a perceção que há é de que há um traficante de droga, que de facto tinha alguns clientes na sua rede de contactos, mas não havia a perceção clara de que havia este, vou chamar-lhe outra vez, modelo de Uber da droga. Isto depois vai ficando mais claro à medida que a investigação se desenvolve e a investigação começa pelo final de 2023, setembro, se não estou em erro. E, portanto, a partir daí e durante um ano, a investigação vai se consolidando e vai-se percebendo, efetivamente, que havia aqui um modelo muito específico de operação.
E o que a polícia descobre na forma como essa operação era feita, em termos de recursos humanos que eram usados, até à detenção do próprio traficante, o que a polícia vai descobrindo?
Sim, de facto, a rede vai crescendo. Vai ganhando forma, a perceção de que a rede era maior do que inicialmente se pensava. Portanto, a investigação começa com um tipo, um traficante, começa a seguir os passos a este traficante e depois o que é que percebe? Que a determinada altura, já no verão de 2024, entre maio, junho, julho de 2024, aparece um sócio do Uber da droga. Portanto, o que aconteceu, na prática, foi: as encomendas eram tantas que já não havia mãos, já não havia capacidade para dar resposta a todos os pedidos que chegavam de entrega de droga. E estamos a falar de co***na, L*D, M**A, uma série de dr**as psicadélicas. E como a determinada altura já não se consegue dar resposta a todos os pedidos, é preciso chamar um novo elemento para duplicar esforços.
A empresa estava a crescer, digamos assim.
A empresa estava a crescer, os clientes eram muitos e, portanto, era preciso dar resposta, foi se buscar um sócio. Mas não era só o sócio. A determinada altura, o que a investigação também percebe? Que a mãe do Uber da droga também tinha aqui um papel na investigação. Numa primeira fase, a perceção é de que a mãe deste traficante tinha um papel muito passivo. Como? Não sei se a expressão é conhecida, mas há uma expressão que se usa neste negócio do tráfico de droga, que é a casa de recuo. Isto pode servir para duas coisas: ou para guardar quantidades maiores de droga, num sítio protegido e mais discreto, ou guardar até material que sirva para depois acondicionar a droga. Falamos de frascos, de sacos, enfim, de tudo que seja material que depois sirva para guardar a droga e distribuí-la. E, portanto, o que se percebe numa primeira fase é que a mãe teria esta função passiva de casa de recuo. O que é que se percebe depois com o desenrolar da investigação? É que não só guardava material que era usado para preparar a droga, como também ia ela própria entregar droga ao terreno, chamemos assim. Houve, durante a investigação, uma série de vigilâncias feitas, de intercepções telefónicas que foram feitas pela PSP, e houve encontros entre a mãe deste Uber da droga e clientes que foram registados, que foram gravados, que foram acompanhados pela PSP. E ficou muito claro que quando o tal traficante não conseguia ir ao terreno ou porque estava de férias, nalguns casos isso aconteceuFalava ao telefone com a mãe, combinava o encontro e era a mãe quem ia fazer as entregas de droga. Deixa-me só fazer esta ressalva, que é: em tribunal, a mãe nunca prestou declarações. O próprio Uber da droga, o que disse sempre foi que a mãe não fazia ideia do negócio que ele mantinha, que não teve nenhuma intervenção, que ele de facto usava a casa da mãe, mas era para ele próprio fazer alguns consumos. Portanto, tentou sempre ilibar a mãe de qualquer intervenção neste negócio. Fez o mesmo com a mulher, que também chegou a ser suspeita de fazer parte desta rede. A PSP suspeitava que era ela quem preparava as doses de droga e também quem fazia a gestão financeira daquele negócio. Em tribunal, e a sentença foi lida no final de maio, apesar de ter sido durante muito tempo considerada suspeita e foi constituída argúida, a mulher deste Uber da droga foi completamente ilibada.
Portanto, tinha um sócio, tinha um apoio logístico da casa da mãe, tinha a mulher, que também de certa forma colaborava.
Era essa a suspeita da investigação, mas que não foi confirmada no final.
Entretanto, com os indícios todos que foi recolhendo, a polícia atuou e foi detê-lo. Como é que foi essa detenção, em que circunstâncias e depois o que a polícia encontrou na casa dele?
Um grande manancial de dr**as, não só na casa dele, mas também na casa do sócio, mas indo por partes. No final de novembro de 24, portanto, um ano e pouco depois de iniciar a investigação, o que a PSP considera é que já tinha prova suficiente. O Ministério Público validou essa perceção e portanto avançam para o terreno. É uma noite em que o Uber da droga, o traficante, vai a sair de casa, a PSP intercepta-o, entra em casa.
Vai sair de casa, ia para um negócio ou ia fazer uma vida normal de família?
A percepção que havia era de que ia haver ali um concerto ou um jantar, um momento em família e, portanto, a família estava a sair de casa.
A família é ele e a mulher?
Ele e a mulher. Eu não tenho a certeza se o filho estava presente. A informação que nós demos em novembro de 2024.
Menor?
Sim, oito anos. A informação que demos em novembro de 2024, quando demos as primeiras informações sobre este caso, era de que o filho também estava presente. Nos autos que eu encontro agora, não vejo referência muito explícita a isso.
Portanto, ia para um concerto, ia para um evento familiar, como uma família normal, de quem ninguém suspeitaria, imagino eu.
Mas a expectativa da PSP era até de que ele fosse ter com um cliente. Esse encontro acaba por não acontecer. Havia aqui um momento familiar de convívio, chamemos assim, um momento de lazer. A PSP interrompe esses planos e avança para a detenção do dealer, do Uber da droga, entra em casa dele, isto por volta das 20h00 de 28 de novembro de 2024. Entra em casa e o que encontra é numa série de espaços, no escritório, no roupeiro, numa série de espaços da casa, numa cômoda, dezenas e dezenas de pastilhas de L*D, M**A, imensas doses de co***na. Portanto, havia uma quantidade muito considerável de vários tipos de droga ali em casa.
E perante essas descobertas, o que diz o traficante de droga?
Nunca nega. O que ele faz desde o primeiro momento, tem uma atitude muito colaborante, indica as zonas, põe-se à disposição das autoridades para abrir portas. Nunca tem uma atitude confrontacional com as forças de segurança, com a PSP. Passado pouquíssimo tempo, cerca das 22h30 dessa mesma noite, portanto, duas horas depois desta intervenção junto do Uber da droga, a PSP intercepta o sócio no Marquês Pombal, na Praça do Marquês de Pombal, e logo ali faz a primeira revista e encontra também várias doses de vários tipos de droga. Portanto, confirmava-se que havia ali algum tipo de negócio. Seguem para um quarto alugado por esse sócio e encontram outro manancial de droga, dos vários tipos de droga, embalagens muito coincidentes com aquelas que já tinham encontrado na casa do dealer e muito dinheiro acondicionado numa bolsinha, onde estavam guardados cerca de €5.000.
E, portanto, o negócio é desmontado nessa altura. Nós estamos a falar de uma rede que alimentava as necessidades, nós já falámos aqui de uma espécie de lista VIP, estamos a falar de que tipo de personalidades é que eram clientes deste Uber da droga?
A lista de clientes é bem mais extensa, as que são arroladas como testemunhas no processo, eram cerca de 15 a 20 pessoas. Há ali três ou quatro nomes que se destacam dos demais. Estamos a falar de atores, de figuras que participaram, antigos concorrentes de reality shows, médicos, e portanto, pessoas com muita projeção pública, pessoas que facilmente são reconhecidas. Há também um atleta olímpico, um medalhado olímpico, portanto, há pessoas cuja referência é bastante fácil de identificar pelo nome ou pela fotografia.
Famosos que estavam aí nesta rede. Tu falaste da sentença, portanto, mesmo que este Uber da droga tenha sido condenado e já há pena.
Sim, na verdade, a condenação foi lida a 28 de maio. O julgamento não demorou muito tempo a ser realizado. Houve condenação para três dos quatro arguidos. Como eu dizia, há quatro arguidos: o Uber da droga, o sócio dele, a mãe dele e a mulher. Destes quatro, só três é que são condenados. Desde logo, o Uber da droga, que era o líder da organização, que é condenado a cinco anos e meio de prisão efetiva, sendo que ele já tem cerca de dois anos de prisão preventiva. O sócio, que é condenado a cinco anos e quatro meses de pena suspensa, e a mãe também, a cinco anos e creio que três meses, também ela de pena suspensa.
Portanto, o único que foi para a prisão foi efetivamente o Uber da droga.
Já lá estava.
Já lá estava. Sendo que esta não era a primeira experiência dele na prisão. Tem uma vida difícil.
Sim, há um contexto familiar muito complicado, há um contexto familiar de infância. Esta pessoa vivia com os pais e assistiu durante alguns anos a cenas de violência doméstica e de facto esta situação acaba de forma trágica quando num destes episódios de violência doméstica, quando o pai está a agredir a mãe, ele recorre a uma arma e dispara na direção do pai e acaba por matá-lo.
E foi preso por causa disso.
Cumpriu um ano de prisão efetiva e mais um ano em domiciliária, na altura, com 17 anos, se não estou em erro.
Pedro, obrigado.
Obrigado.
Eu conversei hoje com o Pedro Rainho, o editor de sociedade do Observador, que escreveu sobre esta rede de serviço de droga ao domicílio, onde foram apanhados atores, estrelas da televisão, participantes de reality shows, desportistas, mas também médicos ou assistentes de bordo. Provavelmente, um dos processos sobre tráfico e consumo de droga que mais figuras públicas envolveu nos últimos anos em Portugal. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até breve.
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