15/10/2026
EUA e Irão já foram grandes amigos.
Vamos recuar até 1908.
O Irão, na altura conhecido internacionalmente como Pérsia, descobre petróleo. Os britânicos percebem rapidamente o potencial daquela riqueza e assumem o controlo de uma parte importante da sua exploração através de uma empresa petrolífera.
O petróleo estava no território iraniano, mas os iranianos consideravam que não estavam a receber uma parte justa da riqueza que era retirada do seu próprio país.
Avançamos até 1951.
Um homem chamado Mohammad Mossadegh chega a primeiro-ministro e toma uma decisão histórica: nacionalizar a indústria petrolífera. Ou seja, devolver ao Estado iraniano o controlo do seu petróleo.
Os britânicos não aceitam a decisão. E, em plena Guerra Fria, convencem os Estados Unidos de que a situação representa também um risco estratégico.
Em 1953, os serviços secretos britânicos e norte-americanos apoiam um golpe que derruba Mossadegh.
O xá regressa ao poder reforçado, o petróleo volta a ser explorado através de um consórcio internacional e os Estados Unidos tornam-se aliados próximos do regime iraniano.
Mas há um problema: muitos iranianos não esquecem o que aconteceu.
Chegamos a 1979.
Uma revolução derruba o xá e instala uma república islâmica. A relação com os Estados Unidos entra em rutura. A ocupação da embaixada norte-americana em Teerão e a crise dos reféns tornam-se o símbolo de uma nova era de hostilidade.
A partir daí, acumulam-se décadas de sanções, conflitos regionais e confrontos em torno do programa nuclear iraniano.
Em 2015, os dois lados participam num acordo nuclear que abre uma janela de esperança. Mas, em 2018, Donald Trump retira os Estados Unidos do acordo e restabelece sanções abrangentes.
E chegamos aos dias de hoje.
Mais de um século depois, o petróleo continua a fazer parte desta história.
Mas há algo que muitas pessoas esquecem, o Irão não precisa sequer de deixar de produzir petróleo para provocar uma subida dos preços.
Basta que aumente o risco de interrupção do tráfego marítimo no estreito de Ormuz, uma passagem fundamental para o abastecimento energético mundial.
E quando o risco aumenta, os mercados reagem. O Brent pode subir, o gasóleo pode ficar mais caro e essa pressão acaba por chegar à economia europeia.
Por isso, quando ouvimos falar de um conflito entre os Estados Unidos e o Irão, não estamos apenas a assistir a uma disputa política ou religiosa.
Estamos a assistir ao resultado de mais de um século de interesses económicos, intervenções estrangeiras, ressentimentos históricos e luta pelo poder.